set 19, 2014

Escritora | Categoria Poesias | 2 comentarios

RESENHA: A morte como companheira

RESENHA: A morte como companheira
morte
LIVRO: Cântico Voraz do precipício
AUTOR: Bruno Gaudêncio
EDITORA: Via Litterarum
Itabuna/Ba. – 2011/ 68p.:il.
“Nem pra morrer, o tempo presta”
Marco Di Aurélio

Livro com temática da Morte sempre suscita o inusitado, porque a morte sempre traz um certo estranhamento ao ser humano. Entretanto, não poderia ser assim, já que a mesma, queira ou não, faz parte do ‘show’ da vida e deveria ser vista, por todo indivíduo, como sendo um ato natural e não de estranhamento. Miguel Unamuno (in Do Sentimento Trágico, 1913) sustenta que a ânsia da imortalidade corresponde ao prolongamento de cada um, na não aceitação da morte como meta final de uma existência.

Cântico Voraz do Precipício, desde de seu título, mostra sua carga semântica trágica. Nietzche (2003) ao falar do nascimento da tragédia, destaca o seu caráter de transgressão de uma ordem estabelecida. Creio que é aí, no ‘estranhamento’ (a morte), onde se encontra o ápice narrativo desse verdadeiro quadro humano.

O Livro se apresenta em duas partes: Na 1a. em Inspirações à beira do abismo, apresenta seis contos; e na 2a. em A linguagem nas sombras da morte mais três outro contos, perfazendo um total de nove contos que tocam a alma de qualquer pessoa, pela sua força poética.
Vê-se às ps. 47/48 in Má Lembrança “(…) Quando ele morreu tinha cinco anos e eu seis de idade. Eu gostava dele, dos seus olhinhos de pitomba, seus cabelos alourados, feito os de tio Renato, e principalmente do seu sorriso maroto.”

Também, à p. 55 “(…) Não deu um minuto, abruptamente, o segurança com um forte chute abriu a porta do apartamento…Um corpo, já ressecado pelo tempo, de uma velhinha no sofá. As mãos jogadas, a cabeça à direita, assentada em uma pequenina almofada. Parecia sorrir embrulhada em um suéter de lã cor aparentemente verde. A casa estava totalmente imunda, cheirando a mofo, mas ainda mantinha requinte.”

E, ainda, à p. 63 “Sentei na pedra irregular dos meus sentidos, no pedaço oblíquo dos nossos sonhos falhos. A tarde estava longe de fazer nascer o inevitável crepúsculo (…) Ao olhar fremente para você, percebi que ainda possuía no instante de pedra o sorriso de lata, as feições pinceladas de um artista clássico renascentista,…”

Portanto, concluo esse breve comentário ratificando o mister do enfrentamento desse dilema humano que é a morte, pois igualmente ao nascimento não há nada de estranho; muito pelo contrário, é a coisa mais natural do mundo.

Deixo, então, a título de reflexão, a seguinte máxima de Pitágoras: “A vida é como uma sala de espetáculo; entra-se, vê-se e sai-se.”

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  1. Lourdes, é com propriedade e pertinência que você traz à baila um assunto considerado o mais forte tabu que enfrentamos – a Morte.

    Com a religiosidade o homem vela a real natureza de si próprio. Decanta um paraíso ilusório para alimentar a neurose de seu desejo de perpetuação. Balduino Lelis diz que temos dois grandes problemas: sermos hormonais e messiânicos. Dois horizontes incompatíveis em termos de compreensão concreta do mundo.

    Parabéns pela Página.

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